Renata do Amaral*
Seria preciso estar em outro planeta ou não ter acesso a nenhum tipo de tela para não notar a presença da comida nas obras audiovisuais hoje em dia. Rafael Climent-Espino advoga a importância da visualidade na comida – e, podemos acrescentar, também da comida na visualidade, dada a abundância de exemplos contemporâneos no cinema e no streaming. Não se trata mais de um nicho restrito a poucos interessados. Ainda são raras, porém, as análises acadêmicas sobre o assunto. O pesquisador argumenta que ele é relegado devido a uma histórica hierarquia dos sentidos que valoriza a visão e a audição em detrimento do olfato, do paladar e do tato, mesmo nas artes visuais.
O livro Comer com os olhos: Comida Cultura Cinema (Autêntica, 2024) busca sanar essa lacuna com abordagens multidisciplinares feitas por especialistas. Organizada pelos professores Sabrina Sedlmayer (Universidade Federal de Minas Gerais), Rafael Climent-Espino (Universidade Baylor, nos Estados Unidos) e Luiz Eduardo Andrade (Universidade Federal de Alagoas), a obra é fruto do grupo de pesquisa SAL: Sobre Alimentos e Literaturas.
Nascido na Faculdade de Letras da UFMG em 2015 e com colaboradores de outros estados e países, o SAL sobreviveu ao afastamento pandêmico lançando o CineSAL em 2021. A atividade mensal, realizada em formato remoto via YouTube, juntou convidados e público para discutir a relação entre cinema e comida. O que antes era uma maneira de se manter pensando junto tornou-se uma série de ensaios, aprofundando os debates. Mas se engana quem pensa que se trata de uma publicação voltada apenas para o público acadêmico.
A organização dos textos segue a ordem de uma refeição completa, indo do Aperitivo – a introdução do livro – ao Café – o momento em que Ana María Gómez-Bravo faz um apanhado do cinema espanhol em busca do aroma do café, tanto como bebida, quanto como espaço de sociabilidade em que coexistem relacionamentos afetivos, encontros profissionais e momentos de introspecção. Entre um e outro, o cardápio passa por Bebida, Especialidades da Casa (filmes nacionais), Pratos Internacionais (filmes estrangeiros), Vegetariano e Sobremesa, contemplando uma variedade de paladares.
Qual a ligação entre Fernando Pessoa e a Coca-Cola? A charada passou batido pela ampla gama de estudiosos do escritor e seus heterônimos, mas não pelo curta-metragem Como Fernando Pessoa salvou Portugal (Eugène Green, 2018). Sabrina Sedlmayer conta a história de como o poeta português hackeou a publicidade e terminou impedindo a chegada do refrigerante ao país, no que ela chama de uma “afinidade eletiva entre a poesia e a história”. Em 1927, ao criar o slogan “Primeiro estranha-se. Depois entranha-se”, Pessoa terminou levando o ministro da Saúde a achar que a bebida causava vício e deveria, portanto, conter mesmo cocaína, como sugere seu nome. Julgou de bom-tom proibir seu consumo por nada menos que meio século.
Ao compartilhar suas reflexões sobre Estômago (Marcos Jorge, 2007), Teodoro Rennó Assunção considera que a simpatia do filme está em como o personagem principal, Nonato, usa seu aprendizado em um restaurante italiano para criar gambiarras para melhorar a alimentação na prisão em que vive. Ele destaca que essa é uma mirada inédita sobre o prazer gastronômico no cinema brasileiro, unindo humor e crítica social. No final da trama, o amor e a fome se entrelaçam na narrativa da forma mais literal possível.
Já em A história da eternidade (Camilo Cavalcante, 2014), a comida surge como metáfora da infinitude – “seja como recorrência cotidiana, seja pelo significado profundo da comida, seja pelo gesto de ofertá-la a quem precisa de acolhimento”, explica Luiz Eduardo Andrade. O autor também ressalta que uma das personagens principais, a adolescente sonhadora Alfonsina, jamais aparece comendo, mas apenas dando de comer aos outros ao seu redor (o pai rude, os irmãos indiferentes, o tio artista e tido como louco por quem nutre uma relação de afeto), fazendo as vezes da mãe que partiu.
O road-movie sertanejo Viajo porque preciso, volto porque te amo (Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, 2009) traz um geólogo em expedição e em eterna fome pela namorada, de quem está distante. Não tarda muito, porém, para que um outro apetite surja com as garotas de programa na estrada e para que o espectador perceba que talvez a namorada, a essa altura, já seja ex. No caminho, a comida é parte importante da narrativa, é estranheza ou pertencimento, como mostra – também poeticamente – Otávio Augusto de Oliveira Moraes: “O cuscuz enquanto alimento local, alimento nativo, é o sabor da própria viagem, seu saber. Afinal, é no prato que o estranho assombra a língua. […] O cuscuz é a entrada do sertão.”
Nem sempre a comida na tela dá água na boca. Patrícia Mourão de Andrade usa um trecho de cinco minutos de Sem essa, Aranha (Rogério Sganzerla, 1970), que considera o mais belo do cinema nacional, para contrapor o comer sem vergonha, de boca aberta, dos filmes ditos marginais à estética da fome do Cinema Novo. Descreve cenas de escatologia e celebração simultâneas, ao som de uma canção de brincadeira de roda infantil.
As cores de Almodóvar, cantadas por Adriana Calcanhotto, aparecem como verdadeiras naturezas mortas na análise de Rafael Climent-Espino sobre A flor do meu segredo, Tudo sobre minha mãe e Volver (Pedro Almodóvar, 1995, 1999, 2006). É a continuação de um estudo sobre a comida na obra do cineasta espanhol, em que ela surge como reforço de vínculos familiares no primeiro filme, espaço de sororidade no segundo e motivo de partilha entre vizinhas no terceiro. “Compartilhar a comida na cozinha, em família, fortalece os laços entre os membros. A comensalidade é um momento privilegiado de comunicação que inclui qualquer grupo de pessoas”, defende.
Autor de dois livros sobre o tema da alimentação na tela grande, Frank Padrón traz o documentário cubano Cuban Food Stories (Asori Soto, 2018), a série americana O urso (Christopher Storer, 2022) e o longa-metragem tailandês Fome de sucesso (Sitisiri Mongkolsiri, 2023) para falar sobre como a comida se encaixa no “livro infinito” citado por Jorge Luis Borges. A variedade de exemplos e relações possíveis é tamanha, para o crítico, que a quantidade de abordagens e estudos possíveis cresce a cada instante.
Lançado há quase 40 anos, O raio verde (Éric Rohmer, 1986) apresenta uma situação ainda comum para os adeptos do vegetarianismo: a estupefação sobre esse regime alimentar, que parece não depender de quão comum ele seja. No filme, uma personagem sofre um verdadeiro interrogatório em uma mesa de almoço, nas férias na praia, com pessoas desconhecidas. Giovanni Comodo ressalta que a identidade e a forma de se alimentar têm tudo a ver: “Reconhecer seu vegetarianismo é também reconhecer a ela própria. A comida é também uma maneira de estar no mundo, conhecê-lo e ser conhecida nele.”
Cabe a dois filmes brasileiros a Sobremesa. Segundo Rodrigo de Almeida Ferreira, Xica da Silva (Cacá Diegues, 1973) relaciona a ostentação das elites coloniais com uma crítica à ditadura militar então corrente. Na história da ex-escravizada que dá nome à obra e se casa com o fidalgo português João Fernandes, também são explorados os jogos políticos à mesa e a ligação entre alimentação e sensualidade.
O tema também surge no ensaio de Susana Souto sobre A hora da estrela (Suzana Amaral, 1985, baseada no romance de Clarice Lispector), que percebe a oposição entre a magreza da órfã Macabéa e a opulência da filha de açougueiro Glória na disputa pelo amor de Olímpio, no que a autora chama de “mercado dos afetos”. Depois da fartura do aniversário da mãe de Glória, Macabéa passa mal e se ressente por colocar a comida para fora, algo impensável para quem tinha tão pouco acesso a ela. Não é somente a presença do alimento, mas também sua falta nas histórias apresentadas na tela que dão o que pensar.
*Renata do Amaral é jornalista, mestra e doutora em Comunicação pela UFPE (com doutorado sanduíche na Universitat Pompeu Fabra, em Barcelona), formada em Gastronomia e autora do livro “Gastronomia: prato do dia do jornalismo cultural”







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