Leia um trecho de “Guanxuma”, novo romance de Eliane Marques

A Autêntica Contemporânea prevê para maio de 2026 o lançamento de Guanxuma, novo romance de Eliane Marques, autora de Louças de família — obra vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura 2024.

(…)

Muntu, uma e outro, tinham a cabeça ocupada.  

Ele, com muringa que, de vez em quando, de puro propósito, fazia transbordar apenas e muito apenas pra sentir o frescor d’água doce que, caída da testa, se arrinconava no centro do lábio superior, uma espécie de coxilha chamada de arco do cupido pelos kilumbus. Arco do cupido! Que coisa mais sem graça! Ele inclinava o tronco pra frente, imantado pelo leste e seu rosto. E seu rosto se voltava água grande angorosa se arrastando num leito yadifu ku dyulu. Vontade da língua dele lamber a doçura d’água arrinconada na coxilha. Vontade represada pra não desagradar com maus modos sua companheira. Eufrásia, a que tinha cabelos pra cinco ou mais cabeças.  

Ela  com o tabuleiro fixado no buraco da cabeça, firmado pelo braço direito num ângulo de noventa. Noventa graus marcados por queimaduras do trabalho no fogão e por outras feridas que ela não quer ouvir mencionadas neste momento. Ela manda! E Ela não gosta de ameaça! Não vem que não tem! Um tabuleiro de kituutis. Não vendia mocotó. Às vendas de mocotó Munga devia seu sustento. Ademais, precisaria dum pouco mais de sal pra preparar a comida. E se vivia numa carestia de sal. E se vivia num andaço de fome. Tudo o que chegava ao porto se destinava às charqueadas e estâncias. Quase nada sobrava pra salgar as línguas ba-ntu. E bonecas feitas por Lumingu. Eufrásia vendia as lindas bonecas de Lumingu.

Eufrásia e Sebastião, com os pés descalços, olfateavam o alento que, nascendo da boca dum, morria na do outro. Fechados os buracos de suas peles em face do olho do sol e do fedor de carniça, imaginavam sobre suas cabeças não um tabuleiro nem um cântaro. Imaginavam o bem alto da copa da árvore da palavreação. Apenas muito apenas imaginavam os frutos doces do palavrear.  Desavia fruto que não fosse em doçura abundante nessa árvore. 

Estavam ali. Ba-ntu naquela encruzilhada. Ambos num encantamento mútuo quando  despertados. Uma  algaravia perfurou a redoma de amor que os cercava. Um toco-toco de cascos. As vozes sufocadas pelo toco-toco, até a do mais miúdo grão de areia. As vozes estilhaçadas. A respiração bufante que parecia inspirar fogaréu. Um resfôlego. Um toco-toco buchinchoso. Não havia tempo pra demorar a mirada. As ngolas tombavam ao ritmo da marcha. 

Por certo descendente dos bovinos que chegaram a estas plagas trazidos da Ilha de Cabo Verde  ou quem sabe das Canárias, kiama, de alguma espécie triste, imprimia sua marca em tudo e pra sempre. Poderia até ter sido a marca da esperança, se não estivesse aprisionada num baú de caravela. Em fúria, com os olhos vendados por um pedaço de couro de ovelha, atropelando qualquer que se metesse em seu caminho, se permitia perseguir por uma turba.  kilumbus. Kilumbus, embora sem cavalos armas de fogo ou botas, nunca se sabia quando dariam o bote. Podiam bisbilhotar à vontade. Mudar da água pro vinho. Dizer uma coisa fazer outra. Mas a boca, nem se precisava de uma grande boca, falava o que eles desqueriam dizer.  

Tsssshh. Tsssshh. Tsssshh. A boca da turba chiava feito chaleira sobre a chapa do fogão. Podia-se ouvi-la ao longe. Um chiado da maldade. Pobres-diabos, falavam grosso apenas com os de sua igualha, ou menos, porque com os centauros, com os bem montados em seus cavalos, baixavam a voz e os olhos.  Maltrapilhos manchados de menga os escassos panos de suas roupas. A barriga saliente de tanta melancia. Quase sempre de mãos vazias, naquele dia-santo santo santo vinham alguns com cutelos em riste, outros com machadinhas, prontos pro abate. Vinham envoltos no chiado da maldade. Mas. Tinham mãos boas. Boas pra esse jeito de morte. Mas. O gritedo e o tropel soavam o inferno sem o diabo pra pôr ordem. O gritedo e o tropel, tudo o que tinham. De seu, nem o nome. 

Enlaça!
Dê-lhe uma esporada. 
Cortem as pelotas dele! 
Ele não tem pelotas.
Aperta, aperta, que o bicho vai embora!

Ao pressentir nas vísceras a presença de Eufrásia e Sebastião, kiama pareceu pedir amparo. Lançando-lhes um bufo, sacudiu os cornos meneou o rabo castigando-se pelos flancos. Com a saliva, feito água da chuva, encharcou os buracos da pele deles. Dos braços. Água da chuva, a dádiva das divindades. E o bafo que escapou da boca-kiama tocou as argolas de ouro de Eufrásia. Desde então ela entendeu a expressão ouro purificado pelo fogo. E se apressou em saldar as dívidas de nascimento. Apressa-te em saldar as dívidas de nascença, ouviu não sabe de onde, uma dívida que gera marés feito mar e, à vazante, deixa a marca nas areias fósseis.  E toco-toco, kiama também ouviu. Tinha bom ouvido. Mas. Perseguido pela turba mugrenta, toco-toco, pulou pro lado esquerdo. Toco-toco. O casal permaneceu impávido no meio da redoma de amor quebrada pela quentura bafenta. Sebastião padeceu duma indomável aflição. Foi invadido por um perfume de gardênias  manchadas de menga que, num esforço, aprisionou na laringe. Eufrásia apertou os dedos dele, com força, deixando liberto apenas o polegar. Ela quis correr, quis ter raiva de seu ofício de lâmpada pequena, de suas mãos miudezas que sustentavam nada além das tarefas múltiplas de sempre.  Ambos tiveram vontade de jogar tudo ao chão, tudo sobre o ponto riscado. Paft. Espatifado o tabuleiro. Paft. Espatifado o cântaro. E água. E kituutis esparramados. Oferecidos à bolsa faminta da terra. Uma oferenda. E a fuga abençoada. Seria uma boa oportunidade pra fuga. Retornar ao sítio que foi trono pra ele e pra ela, onde rainha ou súdito, escravizador ou escravizada, nunca saberiam se na obediência ou no mando radicava a calamidade. Eufrásia carregaria o banquinho. Lule, o amoroso. E a fútu. Sebastião a acompanharia com suas bochechas sujas de pão molhado. São as bochechas que fazem grande o rosto. Hum hum. São as bochechas. No entanto, permaneceram envoltos na polvadera enquanto a turba, em seu alarido, perturbava, e muito, a calada solidão do deus kilumbu. 

Outro dia, pra frente,  mbazi, naquele mesmo cruzo, se perguntaram do que quiseram fugir se alforriados havia anos. 

Descubra mais sobre Eliane Marques, a autora de Louças de Família

Eliane Marques nasceu na fronteira entre Brasil e Uruguai. Publicou o poço das marianas (ganhador do Prêmio Minuano 2022 e finalista do prêmio Associação Gaúcha de Escritores), e se alguém o pano (Prêmio Açorianos) e Relicário. Assina as traduções de Pregão de Marimorena, de Virginia Brindis de Salas, Cabeças de Ifé, de Georgina Herrera (prêmio Associação Gaúcha de Escritores), e O trágico em Psicanálise, de Marcela Villavella. Coordena a editora Escola de Poesia Amefricana e o selo Orisun Oro, que visa à tradução e à publicação de livros de poetas amefricanas no Brasil. É filiada à Àpres Coup Psicanálise e Poesia.

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